Limpar, Desinfetar e Esterilizar para Proteger

A sigla POP significa “Procedimentos Operacionais Padrão”, preconizados pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – e sistematizados em sua Resolução Colegiada RDC 15 (2012), onde se encontra um roteiro para o processamento de materiais reutilizáveis em atividades de saúde, com o fim de minimizar riscos e impactos de contaminação e infecção cruzada. Entre esses procedimentos, trataremos aqui de 3 deles: limpeza, desinfecção e esterilização.

LIMPEZA

Existem pré-limpeza e limpeza. A primeira é a remoção da sujidade visível presente nos produtos para saúde. A segunda é a remoção de sujidades orgânicas e inorgânicas, redução da carga microbiana presente nos produtos para saúde, utilizando água, detergentes, produtos e acessórios de limpeza, por meio de ação mecânica manual ou automatizada, atuando em superfícies internas, como ocos e canulados, e externas, de forma a tornar o produto seguro para manuseio e preparado para desinfecção ou esterilização. Na limpeza mecânica, a fricção deve ser realizada com acessórios não abrasivos para não liberar partículas.

As ações mecânicas têm nos detergentes um eficiente auxiliar. Os detergentes são produtos destinados a limpeza de artigos e superfícies por meio da diminuição da tensão superficial, composto por grupo de substâncias sintéticas, orgânicas, líquidas ou pós solúveis em água que contêm agentes umectantes e emulsificantes para suspender a sujidade e evitar a formação de compostos insolúveis ou espuma no instrumento ou em sua superfície.

Um excelente recurso para complemento da limpeza é a utilização de lavadora ultrassônica, equipamento automatizado que utiliza o princípio da cavitação, cujas ondas de energia acústica propagadas em solução aquosa – com detergente enzimático ou não, aquecida ou não – rompem os elos que fixam a partícula de sujidade à superfície do produto. Os enzimáticos e o aquecimento da água a 56°C potencializam a limpeza do produto, inclusive em pontos de difícil acesso, como lúmen, articulações, superfícies irregulares etc.  

Os produtos para saúde passíveis de processamento, independente da sua classificação de risco, devem ser submetidos ao processo de limpeza, dentro do próprio CME – Centro de Materiais e Esterilização – do serviço de saúde ou em empresa processadora, antes de sua desinfecção ou esterilização. A limpeza de produtos para saúde não críticos pode ser realizada em outras unidades do serviço de saúde desde que de acordo com POP definido pelo CME, baseado na RDC 15.

A limpeza de produtos para saúde, principalmente os de conformações complexas, deve ser precedida de ação manual e complementada por limpeza automatizada em lavadora ultrassônica ou outro equipamento de eficiência comprovada.

O enxágue e a secagem são partes importantes do processo de limpeza. O enxágue deve ser realizado com água que atenda aos padrões de potabilidade definidos em normatização específica e, para enxágue de produtos críticos, recomenda-se água purificada. A secagem deve ser feita com ar comprimido medicinal, filtrado, seco e isento de óleo, porque o ar, além de não deixar fiapos e resíduos na superfície dos produtos, penetra e seca os pontos de difícil acesso.

DESINFECÇÃO

A desinfecção, por ser um estágio acima da limpeza nos cuidados com os materiais reutilizáveis, pode ser dividida em nível intermediário e nível alto. O nível intermediário é um processo físico ou químico que destrói microrganismos patogênicos na forma vegetativa, micobactérias, a maioria dos vírus e dos fungos, de objetos inanimados e superfícies. O nível alto é o processo físico ou químico que destrói a maioria dos microrganismos de artigos semicríticos, inclusive micobactérias e fungos, exceto um número elevado de esporos bacterianos.

A utilização de desinfetantes deve seguir os parâmetros definidos no registro do produto, depois arquivados pelo prazo mínimo de cinco anos. E o CME deve dispor de ambiente exclusivo, apropriado e equipado, seguindo as normas de segurança previstas na RDC 15.

ESTERILIZAÇÃO

Para destruir os esporos bacterianos a solução é a esterilização, processo que combina calor e pressão durante um certo tempo por meio do equipamento autoclave.  Os esporos são organismos unicelulares e uninucleares resistentes a calor e dessecamento, capazes de germinar e de reproduzir assexuadamente, criando novos organismos com razoável rapidez. É em virtude de sua resistência que a esterilização por autoclave é o meio mais recomendado. Por exemplo, ao ser submetidas a uma pressão de 134°C e pressão de 210kPa, durante 3,5 minutos, as bactérias esporuladas são destruídas.

As autoclaves que operam com bomba de vácuo – conhecidas como Classe B pré-vácuo – proporcionam esterilização mais efetiva que as autoclaves sem bomba de vácuo – conhecidas como Classe N gravitacionais, exatamente porque são mais eficientes para eliminar bolhas de ar, inclusive das cargas de maior desafio, e injetar vapor nos pontos de difícil acesso dessas cargas, aspectos fundamentais para uma esterilização efetiva.  

O ar é um excelente isolante térmico. Se a autoclave não possuir mecanismo de retirada de ar de dentro das cargas e da câmara de inox, antes da fase de esterilização, as bolhas residuais de ar criarão bolsas protetoras aos microrganismos que dificultarão a esterilização efetiva do material submetido à autoclavagem. O recurso mais efetivo de retirada das bolhas de ar é a bomba de vácuo.

A qualidade do vapor é um dos fundamentos da boa esterilização. As autoclaves que operam com injeção de vapor associada à pressão negativa produzida por bomba de vácuo entregam melhores resultados para o processo de esterilização, principalmente quando o material a esterilizar for considerado carga de maior desafio como ocos, canulados, porosos, têxteis, contra ângulos, pontas cirúrgicas etc.

Embalagem úmida é pacote (carga) contaminável. E secagem efetiva somente se for a vácuo (porta fechada). Por isso a qualidade da bomba de vácuo tem relação direta com a qualidade do resultado entregue pela autoclave.

A qualidade da esterilização – além de ter estreita relação com a qualidade da limpeza do material - tem a ver com a quantidade e preparação do material colocado dentro da embalagem, com a forma de acondicionar o material embalado nas bandejas para esterilizar. Então, deve-se ficar atento a estes dois pontos: técnica correta de embalar e de acondicionar na bandeja.  

 Concluindo, embora o POP tenha vários passos, a limpeza, a desinfeção e a esterilização são pilares importantes dos procedimentos e a equipe que trabalha no CME deve estar treinada para considerar todas as suas variáveis durante o processamento de materiais reutilizáveis em atividades de saúde.

Woson 

 Biossegurança responsável.

Escrito por:

  • Depoimento - Waldomiro Peixoto
    Waldomiro Peixoto
    Consultor Técnico Woson